Por vezes é-se alertada para a evidência de que a vida passa depressa demais.
Passará a vida depressa demais?
Depois dos verdes anos, a velocidade da passagem dos dias parece ser maior.
E
no crepúsculo duma vida, desse lugar onde se vê, como que em
fotogramas, toda uma existência, tudo parecerá ter sido tão veloz.
Entre a velocidade e a lentidão, prefere-se a lentidão (dos dias, ainda que vazios) sendo que isso não será visível nesses fotogramas de retrospectiva ulterior. Pudéssemos roubar a lentidão e usá-la como lente...
Nada será, porém, mais veloz que o presente.
Teremos pois a legitimidade de deixar que
quase nadas preencham os dias, ao invés de os viver com intensidade desmesurada?
Viver
dias, em que se é no mundo, apenas um na multidão, dias de banalidades,
dias sem música, sem poesia, sem literatura, sem palavras, sem olhares, sem gestos que
nos arrebatem. Dias em que também as noites são banais, e nem um mundo
fora de nós, acessível nestes tempos de virtualidade desmedida, nos
marca o tempo.
Bem se sabe que somos nós e a circunstância, e que a banalidade e os dias quase vazios fazem parte da vida. Sendo que é à soma dos dias, na maioria feitos de quase nada, que chamamos vida.
E passam tantos sem que um sopro de emoção nos envolva.