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quinta-feira, 24 de agosto de 2023

 Sim, regressa-se… ainda se continua a olhar. Menos, é certo, mas importa voltar.

Outros caminhos e desvios nos tolhem o olhar, esquecemos que há poesia, sempre há…


domingo, 23 de agosto de 2020

Ainda...

 

Ainda por aqui...

O tempo que passa, os dias que se sucedem, assim é a vida.

Que a contemplação não se esqueça, que o olhar permaneça...

terça-feira, 10 de abril de 2018

Nel mezzo del cammin di nostra vita...


Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarrita.
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!

Dante Alighieri, La Divina Commedia.

No meio do caminho desta vida me vi numa selva escura, onde me perdi da verdadeira via. Ah, mas como é duro falar desta selva selvagem, que, só de relembrá-la, traz-me de volta o pavor que lá senti. 
[Trad. Eugênio Vinci de Moraes. 2016-A Divina Comédia, L&PM]

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

... da memória



A memória esse lugar onde se passeia.
A memória esse jardim, como um parque por onde se deambula, mas para onde se vai, apenas  quando se quer.
A vontade decide relembrar.
A vontade decide ir caminhar por esse jardim, ora verdejante e luminoso, ora mais carregado de  tons de inverno.
Apenas passeios...

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

... de Milano.


Non è che  dalle cuspidi amorose
Crescano i mutamenti della carne,
MIlano benedetta 
Donna altera e sanguigna 
con due mammelle amorese 
pronte a sfamare i popoli del mondo,
Milano dagli irti colli 
che ha veduto qui 
crescere il mio amore 
Che ora è defunto.
Milano dai vorticosi pensieri 
dove le mille allegrie 
muoiono piangenti sul Naviglio.

Alda Merini

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

do tempo...

(...) tem cada um o seu modo de dormir e morrer, julgamos nós, mas é o dilúvio que continua, chove sobre nós o tempo, o tempo nos afoga.
                                                       José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis


segunda-feira, 24 de julho de 2017

BUenos Aires...

Buenos Aires

¿Qué será Buenos Aires? 
Es la Plaza de Mayo a la que volvieron, después de haber guerreado en el continente, hombres cansados y felices. 
Es el dédalo creciente de luces que divisamos desde el avión y bajo el cual están la azotea, la vereda, el último patio, las cosas quietas. 
Es el paredón de la Recoleta contra el cual murió, ejecutado, uno de mis mayores. 
Es un gran árbol de la calle Junín que, sin saberlo, nos depara sombra y frescura. 
Es una larga calle de casas bajas, que pierde y transfigura el poniente. 
Es la Dársena Sur de la que zarpaban el Saturno y el Cosmos. 
Es la vereda de Quintana en la que mi padre, que había estado ciego, lloró porque veía las antiguas estrellas. 
Es una puerta numerada, detrás de la cual, en la oscuridad, pasé diez días y diez noches, inmóvil, días y noches que no son en la memoria un instante. 
Es el jinete de pesado metal que proyecta desde lo alto su serie cíclica de sombras. 
Es el mismo jinete bajo la lluvia. 
Es una esquina de la calle Perú, en la que Julio César Dabove nos dijo que el peor pecado que puede cometer 
un hombre es engendrar un hijo y sentenciarlo a esta vida espantosa. 
Es Elvira de Alvear, escribiendo en cuidadosos cuadernos una larga novela, que al principio estaba hecha de 
palabras y al fin de vagos rasgos indescifrables. 
Es la mano de Norah, trazando el rostro de una amiga que es también el de un ángel. 
Es una espada que ha servido en las guerras y que es menos un arma que una memoria. 
Es una divisa descolorida o un daguerrotipo gastado, cosas que son del tiempo. 
Es el día en que dejamos a una mujer y el día en que una mujer nos dejó. 
Es aquel arco de la calle Bolívar desde el cual se divisa la Biblioteca. 
Es la habitación de la Biblioteca, en la que descubrimos, hacia 1957, la lengua de los ásperos sajones, la 
lengua del coraje y de la tristeza. 
Es la pieza contigua, en la que murió Paul Groussac. 
Es el último espejo que repitió la cara de mi padre. 
Es la cara de Cristo que vi en el polvo, deshecha a martillazos, en una de las naves de la Piedad. 
Es una alta casa del Sur en la que mi mujer y yo traducimos a Whitman, cuyo gran eco ojalá resuene en esta página. 
Es Lugones, mirando por la ventanilla del tren las formas que se pierden y pensando que ya no lo abruma el deber de traducirlas para siempre en palabras, porque este viaje será el último. 
Es, en la deshabitada noche, cierta esquina del Once en la que Macedonio Fernández, que ha muerto, sigue 
explicándome que la muerte es una falacia. 
No quiero proseguir; estas cosas son demasiado individuales, son demasiado lo que son, para ser también Buenos Aires. 
Buenos Aires es la otra calle, la que no pisé nunca, es el centro secreto de las manzanas, los patios últimos, 
es lo que las fachadas ocultan, es mi enemigo, si lo tengo, es la persona a quien le desagradan mis versos 
(a mí me desagradan también), es la modesta librería en que acaso entramos y que hemos olvidado, es esa 
racha de milonga silbada que no reconocemos y que nos toca, es lo que se ha perdido y lo que será, es lo 
ulterior, lo ajeno, lo lateral, el barrio que no es tuyo ni mío, lo que ignoramos y queremos.

Elogio de la sombra (1969), Jorge Luis Borges 

quinta-feira, 16 de março de 2017

da proibição...



"Dizia para si mesma: amar é uma proibição de estar só"
Aqui



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

da serenidade...



a serenidade é essa paz suave que nos anima e protege.
mais do que um escapar sem escoriações a perigos e lutas,
é um continuar suavemente, num contentamento contido em nós.
porque todo o contentamento, para não ferir o fora de nós, 
deve ser desmesuradamente contido em nós.
suave e sereno, como era o teu olhar,
antes de traí-lo.


segunda-feira, 14 de março de 2016

do que permanecerá...

John Pototschnik, For a Moment, All the World Was Right, 2012
Definitivo.
Um amor definitivo.
Que se quer dizer, ao dizê-lo?
Quer-se falar do para sempre, do que permanecerá.
Não são as palavras que se dizem, são elas que se impõem em nós.
Para sempre...
Bem se sabe da pequenez e finitude, que a arrogância humana não anulam, duma existência.
E como criação humana, connosco partilham, as palavras, a temporalidade. Parecem perdurar bem mais, porém a humanidade é o seu horizonte temporal.
Definitivo, é  o que se define, o que se escolhe, e assim sendo, será o que permanecerá em nós.
Para sempre...

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

vieste...


Vieste, e gostaste. Eu sabia-o.
(Só não sabia que ia ser imperfeito)
Gosta-se do que, em silêncio, se vê, sentindo.
Vieste, e gostaste. 
Eu sempre o quis, que viesses!
Demoraste...

Permaneçamos nós sempre por aqui…
Não deverias deixar-me.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Ausência...

Sim, muda-se, devagar, passamos a ser quem deveríamos ser.
No devir do ser, sentimos... e o pensar não faz parte desse sentir, segue tão mais atrás... ausenta-se, nas mais das vezes.
Não, pensa-se sempre, demasiado depressa, num redemoinho temeroso  e assombroso de palavras, sem coesão.
Há tanta emoção, e silêncio...
Não deverias deixar-me...

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Continuar...

storm day bath beach-Willian Merritt Chase
 
   Recomeça-se, é apenas um recomeço.
   Como se fosse um começo, mas é apenas um continuar.
   Mais um ano, somam-se os dias.
   E, contudo, é um começo feliz...
   E chove...

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Mal de te amar neste lugar de imperfeição...

 


Terror de te amar num sítio frágil como o mundo.

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Houvesse neve...



Nem sempre neva, nem sempre tudo gela.
Agora o frio não gela a alma, nem arrefece o coração.
Agora traz-se a alma aconchegada, ainda que os medos andem por aí...
Houvesse neve e haveria apenas a beleza e o aconchego.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Carpe diem.

Coimbra, 21 de Outubro de  1993  ─   Carpe diem. O velho Horácio disse-o provavelmente quando, como eu agora, já não podia recuperar nenhuma das muitas horas perdidas. Porque, desgraçadamente, é sempre o que acontece. Poucos chegamos ao fim contentes de termos respondido a todos os acenos da vida. Levamos connosco para a sepultura o pesadelo dos gestos que não fizemos, das palavras que não proferimos, dos actos que não praticámos, dos sentimentos a que não damos expressão. A cruciante consciência de que a grande parte das oportunidades que tivemos foram desperdiçadas. E a íntima e desesperante certeza de que, tê-las aproveitado, seria o melhor da nossa existência. 
Carpe diem. Foi-nos recomendado. Mas o talvez mais clarividente alerta que em todos os tempos um poeta nos fez, não teve, nem tem, ouvidos capazes de o ouvir. É uma locução erudita morta, sepultada nas páginas azuis dos dicionários.
 Diário, XVI, 1993, Miguel torga

Por uma cidade, numa cidade, por ti, por mim, em mim renasce a vida, as emoções, os livros, as palavras...

sexta-feira, 20 de julho de 2012

do devir...



Na verdade, ainda que apreciemos o devir, é-nos difícil aceitar a mudança, a alteração do ser.
(ah,  mas o Ser é imutável, perfeito e eterno...)
Seríamos outros se o mundo fosse composto não de mudança mas de imutabilidade.
Procurámos fazer permanecer, fixar, o que nos emociona, o que nos cala...
É isto que uma fotografia nos leva a pensar.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

do silêncio...


Que se  pode fazer para emergir deste silêncio?
Que fazer para sair deste silêncio que nos cala as palavras?
Que poesia nos pode resgatar?
Ainda nos salvará alguma ternura?
Com que olhos procurar a poeisa do mundo?
Em que gestos inventar a ternura?
Que cabe no silêncio?
Vida, poesia e ternura, sempre.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mais raro que breve...

Às vezes a ficção dá-nos a ideia de que é possível, nomeadamente de que é fácil. Fácil viver, fácil perder e ganhar, fácil perder e encontrar, fácil o encontrar. Porém a realidade, sem delicadeza ou suavidade, mostra-nos que o encontrar é tão raro. Relembram-se os verdes anos, o tempo em que todos os sonhos eram possíveis (quando a ficção não nos era tão extrínseca,  mas misturava-se em nós como coisa vivida). Nesses tempos não houve a generosidade dos deuses na abundância dos encontros, mas disso não se reclamava. Houve o frémito da pequena emoção, do olhar que se roubava, do sorriso ou toque que se resgatava. Achava-se, à época, que tal era privilégio raro, e como o tempo passava lento demorávamos-nos no viver de tais emoções, não pensando na raridade.
Hoje sabe-se que, ainda que tudo seja tão breve, é mais raro que breve.

terça-feira, 6 de março de 2012

Aniversário

"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos"...Aniversário, Álvaro de Campos 
Ainda festejam o dia dos meus anos, ainda estão presentes os que me querem bem.
Ainda me inundam de alegrias e ternura, ainda são meus os sorrisos.
Ainda tudo é serenidade e emoções de gratidão...
E, teme-se o tempo em que já não estarão por cá os que ainda hoje o celebram.
Teme-se um tempo de solidão, como se fosse possível colher o que se não planta.
E na memória ficam lembranças de dias, de emoções, de pessoas e palavras, soubesse eu escrever...
Mas talvez se prefira o esquecimento, importa esquecer, não lembrar, esvaziarmo-nos daquilo que nos enche de nada.
E assim se somam os dias, se juntam uns ao outros, tempo contado, bem o sabemos...
E vive-se à beira de deixar de esperar... ainda que, teime em nós a poesia.
Talvez, em dias como o de hoje, sob este sol de Inverno, e no espelho dos outros, esperar seja tão natural como olhar...
À espera da alegria do "não querer mais nada" e sorrir...