domingo, 22 de setembro de 2013

das tuas mãos no meu rosto...

Bo Bartlett, 2009, Penumbra

As tuas mãos no meu rosto...
É das tuas mãos no meu rosto de que preciso.
As tuas mãos no meu rosto, são toda a ternura do mundo.
As tuas mãos no meu rosto, são muito mais que a suavidade delas, são toda a ternura do gesto.

Ensinaste-me a sentir, primeiro, para depois me mostrares como eram as tuas mãos no meu rosto.
As tuas mãos no meu rosto, são em mim a ternura da alma.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Caminhando...


Longo o caminho, feito ou a fazer...
Sempre a procura da serenidade, quer-se a tranquilidade.
Como se tudo fosse menos penoso, desse modo.
E quando se sabe, sentindo, que já não se caminha só...
Caminhemos...

quinta-feira, 30 de maio de 2013

... do rio que passa.



   talvez haja sempre um rio.
   precisamos de um rio, de olhá-lo... da janela vemos uma nesga de rio.
   e em nós há o sorriso de quem sabe olhar o rio que passa...
   e no rio que passa, se enlaçarmos as mãos, veremos a esperança...

domingo, 5 de maio de 2013

pelas águas de um rio...

 

Perceber Virgínia Wolf, que caminhou, com determinação, pelas águas de um rio. Mergulhou nele, talvez sem medo, até porque a água de tom verde (talvez) não intimidasse quem serenamente não queria mais andar por aqui.
Às vezes quer-se um rio por onde caminhar, porque não há outro caminho...

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Cai chuva do céu cinzento


Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não,
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.
                 
                         15-11-1930          Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa

E porque chove. Talvez os dias, nublados, nos limitem a esperança, se ao menos houvesse luar... saberíamos ter esperança.

segunda-feira, 18 de março de 2013

O amor é uma companhia.

Pierre Auguste Renoir, La Promenade
O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na
                                        ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara
                                         dela no meio.

segunda-feira, 4 de março de 2013

because of you...




Sobre uma Europa à deriva, bem se sabe que os dias não são de esperança, antes de desalento e de incerteza.
Perdidos na voracidade e agitação dos dias, pelo desconcerto do mundo.
Para lá da espuma dos dias fica sempre tão pouco.
E o mar, e um olhar podem ser tanto...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

da ternura...

Steve Hanks -Country Comfort
" ...o amor é sempre um renascimento, mas o meu era-o absolutamente no sentido próprio do termo. Numa semana tornei-me outro homem.(...) Evaporou-se tudo o que, na vida, me parecia sombrio. Sabia tirar partido das coisas. Ousava ser feliz."

Divórcio em Buda, de Sándor Márai
Dom Quixote, 2010
Tradução de Ernesto Rodrigues
 
Janeiro, as chuvas, os dias cinzentos, e a ternura que em nós derrama luz e calor, bem mais que o sol de inverno...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

É beijo...

                       Beijo
Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no de abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mas beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios lábios se deseja.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Houvesse neve...



Nem sempre neva, nem sempre tudo gela.
Agora o frio não gela a alma, nem arrefece o coração.
Agora traz-se a alma aconchegada, ainda que os medos andem por aí...
Houvesse neve e haveria apenas a beleza e o aconchego.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O tell me the truth about love.. .


O Tell Me The Truth About Love
 
Some say love's a little boy,
And some say it's a bird,
Some say it makes the world go around,
Some say that's absurd,
And when I asked the man next-door,
Who looked as if he knew,
His wife got very cross indeed,
And said it wouldn't do.
 
Does it look like a pair of pyjamas,
Or the ham in a temperance hotel?
Does its odour remind one of llamas,
Or has it a comforting smell?
Is it prickly to touch as a hedge is,
Or soft as eiderdown fluff?
Is it sharp or quite smooth at the edges?
O tell me the truth about love.

Our history books refer to it
In cryptic little notes,
It's quite a common topic on
The Transatlantic boats;
I've found the subject mentioned in
Accounts of suicides,
And even seen it scribbled on
The backs of railway guides.

Does it howl like a hungry Alsatian,
Or boom like a military band?
Could one give a first-rate imitation
On a saw or a Steinway Grand?
Is its singing at parties a riot?
Does it only like Classical stuff?
Will it stop when one wants to be quiet?
O tell me the truth about love.
 
I looked inside the summer-house;
It wasn't over there;
I tried the Thames at Maidenhead,
And Brighton's bracing air.
I don't know what the blackbird sang,
Or what the tulip said;
But it wasn't in the chicken-run,
Or underneath the bed.

Can it pull extraordinary faces?
Is it usually sick on a swing?
Does it spend all its time at the races,
or fiddling with pieces of string?
Has it views of its own about money?
Does it think Patriotism enough?
Are its stories vulgar but funny?
O tell me the truth about love.
 
When it comes, will it come without warning
Just as I'm picking my nose?
Will it knock on my door in the morning,
Or tread in the bus on my toes?
Will it come like a change in the weather?
Will its greeting be courteous or rough?
Will it alter my life altogether?
O tell me the truth about love.
Ah, diz-me verdade acerca do amor
 
Há quem diga que o amor é um rapazinho,
E quem diga que ele é um pássaro;
Há quem diga que faz o mundo girar,
E quem diga que é um absurdo,
E quando perguntei ao meu vizinho,
Que tinha ar de quem sabia,
A sua mulher zangou-se mesmo muito,
E disse que isso não servia para nada.

Será parecido com uns pijamas,
Ou com o presunto num hotel de abstinência?
O seu odor faz lembrar o dos lamas,
Ou tem um cheiro agradável?
É áspero ao tacto como uma sebe espinhosa
Ou é fofo como um edredão de penas?
É cortante ou muito polido nos seus bordos?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.

Os nossos livros de história fazem-lhe referências
Em curtas notas crípticas,
É um assunto de conversa muito vulgar
Nos transatlânticos;
Descobri que o assunto era mencionado
Em relatos de suicidas,
E até o vi escrevinhado
Nas costas dos guias ferroviários.
 
Uiva como um cão de Alsácia esfomeado,
Ou ribomba como uma banda militar?
Poderá alguém fazer uma imitação perfeita
Com um serrote ou um Steinway de concerto?
O seu canto é estrondoso nas festas?
Ou gosta apenas de música clássica?
Interrompe-se quando queremos estar sossegados?
Ah! diz-me a verdade acerca do amor.
 
Espreitei a casa de verão,
E não estava lá,
Tentei o Tamisa em Maidenhead
E o ar tonificante de Brighton,
Não sei o que cantava o melro,
Ou o que a tulipa dizia;
Mas não estava na capoeira,
Nem debaixo da cama.
 
Fará esgares extraordinários?
Enjoa sempre num baloiço?
Passa todo o seu tempo nas corridas?
Ou a tocar violino em pedaços de cordel?
Tem ideias próprias sobre o dinheiro?
Pensa ser o patriotismo suficiente?
As suas histórias são vulgares mas divertidas?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.
 
Chega sem avisar no instante
Em que meto o dedo no nariz?
Virá bater-me à porta de manhã,
Ou pisar-me os pés no autocarro?
Virá como uma súbita mudança de tempo?
O seu acolhimento será rude ou delicado?
Virá alterar toda a minha vida?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.
               Janeiro, 1938
 
                W.H. Auden,
                 DIZ-ME A VERDADE ACERCA DO AMOR,
               Tradução de Maria de Lourdes Guimarães,
               Relógio d´Água, 1994

 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

da espera...

Durante tanto tempo tratava-se da soma dos dias. Somavam-se os dias, apenas, como que se visse a vida do lado de fora.
Hoje, ainda que inexoravelmente os dias sejam somados, está-se do lado de dentro da vida.
Sente-se a perfeição neste não se querer mais nada, sorri-se por se ter deixado cair, finalmente, de tantas frases o quase.
Como os barcos esperam no cais por quem os leve, assim se esteve até que, com feliz serenidade, incredulidade e assombro, se deixou o cais e a espera para trás. Viajante como criança onde o espanto e a emoção transbordam do peito e dos dias e continuam nos alegres sonhos da noite.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A meu favor tenho o teu olhar...

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Manuel António Pina in “Algo Parecido Com Isto, da Mesma Substância”

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Carpe diem.

Coimbra, 21 de Outubro de  1993  ─   Carpe diem. O velho Horácio disse-o provavelmente quando, como eu agora, já não podia recuperar nenhuma das muitas horas perdidas. Porque, desgraçadamente, é sempre o que acontece. Poucos chegamos ao fim contentes de termos respondido a todos os acenos da vida. Levamos connosco para a sepultura o pesadelo dos gestos que não fizemos, das palavras que não proferimos, dos actos que não praticámos, dos sentimentos a que não damos expressão. A cruciante consciência de que a grande parte das oportunidades que tivemos foram desperdiçadas. E a íntima e desesperante certeza de que, tê-las aproveitado, seria o melhor da nossa existência. 
Carpe diem. Foi-nos recomendado. Mas o talvez mais clarividente alerta que em todos os tempos um poeta nos fez, não teve, nem tem, ouvidos capazes de o ouvir. É uma locução erudita morta, sepultada nas páginas azuis dos dicionários.
 Diário, XVI, 1993, Miguel torga

Por uma cidade, numa cidade, por ti, por mim, em mim renasce a vida, as emoções, os livros, as palavras...

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

do renascer.



Quem serás tu? Oxalá fosses quem deverias ser.
E se o fosses? Saberia reconhecê-lo?
Saberia continuar a ser eu, acaso fosses tu quem deverias ser?
Saberia receber-te, se acaso fosses quem deverias ser?
Frases soltas que emergiram do espanto e do assombro suave.
Crê-se que se sabia o que se esperava, ah, mas a demora tolda-nos o ver.
E um olhar que nos revolve o ser, devagar.
Renasce-se, com flores e sonhos...

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

da verdade...


 
“(…) com efeito, só enquanto a coragem ousa atirar-se para a frente é que, segundo o grau de força, alguém se aproxima da verdade.
Para o forte, o conhecimento, o dizer sim à realidade é uma necessidade tal como, para o fraco, sob a inspiração da fraqueza, também é uma necessidade a cobardia e a fuga perante a realidade – o «ideal»...  A estes não está patente o conhecer: os décadents precisam da mentira, esta é uma das condições da sua conservação. 
Quem não só compreende a palavra «dionisíaco», mas se compreende a si na palavra «dionisíaco», não necessita de qualquer refutação de Platão, ou do cristianismo, ou de Schopenhauer – fareja a putrefacção...” 
 Friedrich Nietzsche, Ecce Homo, Como se chega a ser o que se é.      Nietzsche, doc.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

do lugar de sempre...

 
Volta-se ao lugar de sempre, ao lugar onde se sente que, se tu estivesses, nada mais se haveria de querer.
Volta-se ao lugar onde nunca estiveste.
Saberás que há sempre a presença da tua ausência, ainda que já demasiado ténue?
Volta-se ao lugar onde se sente que se está só, ainda que sem solidão.
Volta-se ao lugar onde, na calma das águas, no sossego e silêncio das gentes, se pensa no que nos falta.
Volta-se ao lugar onde a cada regresso se agradece a alegria, a paz, e a generosa soma dos dias.
Volta-se ao lugar onde mesmo sem ti, se é feliz, ainda que de forma pequena.
Soubesse-se explicar o que se sente a cada regresso...

sexta-feira, 20 de julho de 2012

do devir...



Na verdade, ainda que apreciemos o devir, é-nos difícil aceitar a mudança, a alteração do ser.
(ah,  mas o Ser é imutável, perfeito e eterno...)
Seríamos outros se o mundo fosse composto não de mudança mas de imutabilidade.
Procurámos fazer permanecer, fixar, o que nos emociona, o que nos cala...
É isto que uma fotografia nos leva a pensar.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

do silêncio...


Que se  pode fazer para emergir deste silêncio?
Que fazer para sair deste silêncio que nos cala as palavras?
Que poesia nos pode resgatar?
Ainda nos salvará alguma ternura?
Com que olhos procurar a poeisa do mundo?
Em que gestos inventar a ternura?
Que cabe no silêncio?
Vida, poesia e ternura, sempre.