quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A meu favor tenho o teu olhar...

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Manuel António Pina in “Algo Parecido Com Isto, da Mesma Substância”

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Carpe diem.

Coimbra, 21 de Outubro de  1993  ─   Carpe diem. O velho Horácio disse-o provavelmente quando, como eu agora, já não podia recuperar nenhuma das muitas horas perdidas. Porque, desgraçadamente, é sempre o que acontece. Poucos chegamos ao fim contentes de termos respondido a todos os acenos da vida. Levamos connosco para a sepultura o pesadelo dos gestos que não fizemos, das palavras que não proferimos, dos actos que não praticámos, dos sentimentos a que não damos expressão. A cruciante consciência de que a grande parte das oportunidades que tivemos foram desperdiçadas. E a íntima e desesperante certeza de que, tê-las aproveitado, seria o melhor da nossa existência. 
Carpe diem. Foi-nos recomendado. Mas o talvez mais clarividente alerta que em todos os tempos um poeta nos fez, não teve, nem tem, ouvidos capazes de o ouvir. É uma locução erudita morta, sepultada nas páginas azuis dos dicionários.
 Diário, XVI, 1993, Miguel torga

Por uma cidade, numa cidade, por ti, por mim, em mim renasce a vida, as emoções, os livros, as palavras...

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

do renascer.



Quem serás tu? Oxalá fosses quem deverias ser.
E se o fosses? Saberia reconhecê-lo?
Saberia continuar a ser eu, acaso fosses tu quem deverias ser?
Saberia receber-te, se acaso fosses quem deverias ser?
Frases soltas que emergiram do espanto e do assombro suave.
Crê-se que se sabia o que se esperava, ah, mas a demora tolda-nos o ver.
E um olhar que nos revolve o ser, devagar.
Renasce-se, com flores e sonhos...

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

da verdade...


 
“(…) com efeito, só enquanto a coragem ousa atirar-se para a frente é que, segundo o grau de força, alguém se aproxima da verdade.
Para o forte, o conhecimento, o dizer sim à realidade é uma necessidade tal como, para o fraco, sob a inspiração da fraqueza, também é uma necessidade a cobardia e a fuga perante a realidade – o «ideal»...  A estes não está patente o conhecer: os décadents precisam da mentira, esta é uma das condições da sua conservação. 
Quem não só compreende a palavra «dionisíaco», mas se compreende a si na palavra «dionisíaco», não necessita de qualquer refutação de Platão, ou do cristianismo, ou de Schopenhauer – fareja a putrefacção...” 
 Friedrich Nietzsche, Ecce Homo, Como se chega a ser o que se é.      Nietzsche, doc.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

do lugar de sempre...

 
Volta-se ao lugar de sempre, ao lugar onde se sente que, se tu estivesses, nada mais se haveria de querer.
Volta-se ao lugar onde nunca estiveste.
Saberás que há sempre a presença da tua ausência, ainda que já demasiado ténue?
Volta-se ao lugar onde se sente que se está só, ainda que sem solidão.
Volta-se ao lugar onde, na calma das águas, no sossego e silêncio das gentes, se pensa no que nos falta.
Volta-se ao lugar onde a cada regresso se agradece a alegria, a paz, e a generosa soma dos dias.
Volta-se ao lugar onde mesmo sem ti, se é feliz, ainda que de forma pequena.
Soubesse-se explicar o que se sente a cada regresso...

sexta-feira, 20 de julho de 2012

do devir...



Na verdade, ainda que apreciemos o devir, é-nos difícil aceitar a mudança, a alteração do ser.
(ah,  mas o Ser é imutável, perfeito e eterno...)
Seríamos outros se o mundo fosse composto não de mudança mas de imutabilidade.
Procurámos fazer permanecer, fixar, o que nos emociona, o que nos cala...
É isto que uma fotografia nos leva a pensar.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

do silêncio...


Que se  pode fazer para emergir deste silêncio?
Que fazer para sair deste silêncio que nos cala as palavras?
Que poesia nos pode resgatar?
Ainda nos salvará alguma ternura?
Com que olhos procurar a poeisa do mundo?
Em que gestos inventar a ternura?
Que cabe no silêncio?
Vida, poesia e ternura, sempre.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Chama que morre...


Há momentos em que a chama no nosso olhar, e em nós, vai morrendo.
Como se a tristeza fosse um ar frio, ainda que suave, que vai apagando a chama. Fica-se a olhar para a chama vendo-a extinguir-se lentamente, tão lentamente que parece por vezes ainda durar, e luta-se até ao fim, protegendo-a esperando outro desenlace, que não o fim.
Bem sabemos que esse mesmo ar frio pode voltar a reacendê-la.
E nisto se tarda… e a demora?

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Chama que morre...


A loucura chamada afirmar, a doença chamada crer, a infâmia...
A loucura chamada afirmar, a doença chamada crer, a infâmia chamada ser feliz — tudo isto cheira a mundo, sabe à triste coisa que é a terra.
Sê indiferente. Ama o poente e o amanhecer, porque não há utilidade, nem para ti, em amá-los.
Veste teu ser do ouro da tarde morta, como um rei deposto numa manhã de rosas, com Março nas nuvens brancas e o sorriso das virgens nas quintas afastadas. Tua ânsia morra entre mirtos, teu tédio cesse então [...] e o som da água acompanhe tudo isto como um entardecer ao pé de margens, e o rio, sem sentido salvo correr, eterno, para marés longínquas. O resto é a vida que nos deixa, a chama que morre no nosso olhar, a púrpura gasta antes de a vestirmos, a lua que vela o nosso abandono, as estrelas que estendem o seu silêncio sobre a nossa hora de desengano. Assídua a mágoa estéril e amiga que nos aperta ao peito com amor.
 [...]

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mais raro que breve...

Às vezes a ficção dá-nos a ideia de que é possível, nomeadamente de que é fácil. Fácil viver, fácil perder e ganhar, fácil perder e encontrar, fácil o encontrar. Porém a realidade, sem delicadeza ou suavidade, mostra-nos que o encontrar é tão raro. Relembram-se os verdes anos, o tempo em que todos os sonhos eram possíveis (quando a ficção não nos era tão extrínseca,  mas misturava-se em nós como coisa vivida). Nesses tempos não houve a generosidade dos deuses na abundância dos encontros, mas disso não se reclamava. Houve o frémito da pequena emoção, do olhar que se roubava, do sorriso ou toque que se resgatava. Achava-se, à época, que tal era privilégio raro, e como o tempo passava lento demorávamos-nos no viver de tais emoções, não pensando na raridade.
Hoje sabe-se que, ainda que tudo seja tão breve, é mais raro que breve.

sábado, 19 de maio de 2012

do silêncio...

 Federico Mompou, Musica Callada, Silent Music


"424 - Quando estiveres cansado de olhar uma flor, uma criança, uma pedra, quando estiveres cansado ou distraído de ouvir um pássaro a explicar o ser, quando te não intrigar o existirem coisas e numa noite de céu limpo nenhuma estrela te dirigir a palavra, quando estiveres farto de saberes que existes e não souberes que existes, quando reparares que nunca reparaste no azul do mar, quando estiveres farto de querer saber o que nunca saberás, se nunca o amanhecer amanheceu em ti ou já não, se nunca amaste a luz e só o que ela ilumina, se nunca nasceste por ti e não apenas pelos que te fizeram nascer, se nunca soubeste que existias mas apenas o que exististe com esse existir, quando, se -, porque temes então a morte, se já estás morto?"

                                                
                                                Vergílio Ferreira, pensar,1993 Vergílio Ferreira

domingo, 13 de maio de 2012

da lentidão


Continua-se a ter tão pouco para dizer, torna-se o silêncio mais presente.
Há lugares, cidades, que se visitam, outros países, lugares com gentes, cheiros e olhares, porém falta-me o tempo para a demora necessária do sentir.
Olhar e sentir exige-me tempo, preciso da lentidão no andar, no olhar...
sempre a lentidão, ainda que seja a velocidade que impera e comanda os dias.
E fica o silêncio porque não se acha o que escrever, e porque o sentir cala o pensar.
Fica o silêncio porque não se acha o que escrever  face ao tédio...
Fica o silêncio no encontro das palavras escritas dos outros
Fica o silêncio porque morre quem tinha mais vida, mais arte, mais música...
Fica o silêncio porque da espera já não lembro.

domingo, 22 de abril de 2012

Uma ilusão...


"Um vez eu tive uma ilusão, e não soube o que fazer,
não soube o que fazer com ela...
 não soube o que fazer, e ela se foi, porque eu a deixei... 
por que eu a deixei? não sei. 
eu só sei que ela se foi..."


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Simone


Voltaste e estavas linda,
o mais, o silêncio, a tua voz, o coração guardará, se o souber...

domingo, 8 de abril de 2012

Como os barcos...


Queria-se acreditar, somente acreditar...
Esperar, acreditando.
Esperar como os barcos esperam junto ao cais, que os levem...

sexta-feira, 16 de março de 2012

Lentidão...


Por vezes é-se alertada para a evidência de que a vida passa depressa demais.
Passará a vida depressa demais?
Depois dos verdes anos, a velocidade da passagem dos dias parece ser maior.
E no crepúsculo duma vida, desse lugar onde se vê, como que em fotogramas, toda uma existência, tudo parecerá ter sido tão veloz.
Entre a velocidade e a lentidão, prefere-se a lentidão (dos dias, ainda que vazios) sendo que isso não será visível nesses fotogramas de retrospectiva ulterior. Pudéssemos roubar a lentidão e usá-la como lente...
Nada será, porém, mais veloz que o presente.
Teremos pois a legitimidade de deixar que quase nadas preencham os dias, ao invés de os viver com intensidade desmesurada?
Viver dias, em que se é no mundo, apenas um na multidão, dias de banalidades, dias sem música, sem poesia, sem literatura, sem palavras, sem olhares, sem gestos que nos arrebatem. Dias em que também as noites são banais, e nem um mundo fora de nós, acessível nestes tempos de virtualidade desmedida, nos marca o tempo.
Bem se sabe que somos nós e a circunstância, e que a banalidade e os dias quase vazios fazem parte da vida. Sendo que é à soma dos dias, na maioria feitos de quase nada, que chamamos vida.
E passam tantos sem que um sopro de emoção nos envolva.

terça-feira, 6 de março de 2012

Aniversário

"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos"...Aniversário, Álvaro de Campos 
Ainda festejam o dia dos meus anos, ainda estão presentes os que me querem bem.
Ainda me inundam de alegrias e ternura, ainda são meus os sorrisos.
Ainda tudo é serenidade e emoções de gratidão...
E, teme-se o tempo em que já não estarão por cá os que ainda hoje o celebram.
Teme-se um tempo de solidão, como se fosse possível colher o que se não planta.
E na memória ficam lembranças de dias, de emoções, de pessoas e palavras, soubesse eu escrever...
Mas talvez se prefira o esquecimento, importa esquecer, não lembrar, esvaziarmo-nos daquilo que nos enche de nada.
E assim se somam os dias, se juntam uns ao outros, tempo contado, bem o sabemos...
E vive-se à beira de deixar de esperar... ainda que, teime em nós a poesia.
Talvez, em dias como o de hoje, sob este sol de Inverno, e no espelho dos outros, esperar seja tão natural como olhar...
À espera da alegria do "não querer mais nada" e sorrir...

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Fosse sinfonia...

 

Minha alma é uma orquestra oculta

Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tange e range, cordas e harpas, tímbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia.

Todo o esforço é um crime porque todo o gesto é um sonho inerte.

As tuas mãos são rolas presas.
Os teus lábios são rolas mudas.
(que aos meus olhos vêm arrulhar)

Todos os teus gestos são aves. És andorinha no abaixares-te, condor no olhares-me, águia nos teus êxtases de orgulhosa indiferente.

(...)

Meu corpo treme-me a alma de frio... Não um frio que há no espaço, mas um frio que há em vir a chuva...

Todo o prazer é um vício, porque buscar o prazer é o que todos fazem na vida, e o único vício negro é fazer o que toda a gente faz.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Ainda e sempre...


Há tantos anos atrás, por estes dias, sofria a tua perda. Não lembrava já, disso.
Hoje vi-te, e fez-se de novo presente a dor, bem mais que a lembrança.
Hoje vi-te, sem te ver (apenas olhei uma foto tua, nesse "lugar" onde as pessoas se fazem presentes no mundo).
Olhei-te o rosto, nada vi de diferente, nem a passagem dos anos, ainda vi a beleza.
E olhei-te os olhos. Esses olhos que tanto me olharam, e neles não vi nada de mim.

Ainda me dói o teu fim...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Da ternura...


Sempre a ternura, que é, também, uma tristeza suave.
Da ternura e do engano...
A cada engano, que me retirou, ainda que por breves momentos, da espera, do vazio e do quase nada...
A cada engano, a cada ver que não eras tu, (como se fosse possível que viesses, fingi-se que se crê...) regresso a mim.
Regresso, pela ternura, a mim.
A cada engano, regresso ao que sou, ao que em mim há de quase nada.
A cada engano, regresso também, ao que sou de alegria,  do riso e sorrisos e dessa ternura alegre, das mãos enlaçadas dos amigos...
A cada engano, mais terno o coração se torna.
Como explicar de que tudo, hoje, é ternura?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Da ternura...

 
Levei-te a casa, mas antes quiseste um passeio à beira de água, à beira de água onde de mãos enlaçadas ficámos a olhar a noite, e o rio à nossa frente. Os teus olhos demoraram-se nas luzes do rio, de barcos? perguntaste, e as nossas mãos continuaram juntas, como se isso fosse tão natural como o barulho do vento.
Levei-te a casa, e deste-me um beijo, veloz e ligeiro... como se isso fosse tão natural como a ternura que há nós. Pudesse o mundo ser olhado, sempre, com os olhos da ternura, como se isso fosse tão natural como as nossas mãos serenas e enlaçadas.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Envelhecendo...

Peder Mork Mønsted- Calm waters
À Beira de Água

                                             Estive sempre sentado nesta pedra
                                            escutando, por assim dizer, o silêncio.
                                            Ou no lago cair um fiozinho de água.
                                            O lago é o tanque daquela idade
                                            em que não tinha o coração
                                            magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
                                            dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
                                            tão feito de privação.) Estou onde
                                            sempre estive: à beira de ser água.
                                           Envelhecendo no rumor da bica
                                           por onde corre apenas o silêncio.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Soubesse eu escrever...



Soubesse eu escrever, fosse-me fácil escrever, não me calasse o não saber, e talvez me fosse mais suave o silêncio. Esses tantos momentos em que se sente, em que se olha, em que se compreende.
Esses tantos momentos, em que, deixando de lado o buliço dos dias, se pensam outras coisas para lá da espuma dos dias e suas inquietações. Ou, pudesse eu, sabendo, escrever sobre risos e sorrisos, e sobre outras tantas coisas de que comunga quem escreve. 
Ainda que tivesse eu bem mais do que escrever para além da espera, do silêncio, do vazio, do quase nada... Abundassem, em mim, as palavras, e querendo soltar-se para se exporem, se tornassem quase perfeitas pelo meu escrever, soubesse eu escrever...

sábado, 24 de dezembro de 2011

Sobre a serenidade...


A estética dos barcos, da água, do azul, afinal da serenidade...
E a serenidade que está em nós, daí que a encontremos nos lugares por onde andamos, e por onde nos demoramos...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

domingo, 27 de novembro de 2011

Sol de Inverno...



Sol de Inverno, que nos é gratuito, que nos aquece o corpo, que nos aquece a alma, acaso deixássemos a alma a ele se expor...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

emoção...

Às vezes quer-se voltar a um tempo de emoção (...) precisa-se de poesia, de emoção...de qualquer coisa que encha o coração.
Bem se sabe do ridículo...


          Eu só sabia olhar... 

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Seguir o vento...


                    Hoje de manhã saí muito cedo,
                    Por ter acordado ainda mais cedo
                    E não ter nada que quisesse fazer...


                   Não sabia que caminho tomar
                   mas o vento soprava forte,
                   E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
                   Assim tem sido sempre a minha vida, e assim quero que possa ser sempre —
                   Vou onde o vento me leva e não me deixo pensar.


                              Alberto Caeiro, In Poesia ,

      Pudesse eu seguir o vento e não pensar....

              

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

When do the bells ring for me?


Edward Hopper (1882-1967)
Cape Cod Evening  1939

I wonder when do the bells ring for me
when someone tugs a heartstring for me?
when does it come my time?
when does the poem rhyme?
when do the songs they sing, sing for me?

to those who say "hey, wake up and feel life"
I say "i'm ready, just show me the way"
show me those arms that say "welcome to real life"
and we'll stay, we'll stay

how many parties more can i run to?
how many little loves can there be
before it's all a bore?
forget it, i want more
I want someone who wants want more of me
 like making promises good in the daylight
the thing is here am i, where is she?
when is it my chance?
when is it my dance
when do the bells ring for me?

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Chove!


Chove!
Chove...

Mas isso que importa!,
 se estou aqui abrigado nesta porta
 a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

 Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
 até na lama.

José Gomes Ferreira... dito por Mário Viegas

terça-feira, 1 de novembro de 2011

hipertexto...


Este hipertexto (fragmentos de um longo texto dispersos por folhas, cadernos, e sei lá mais o quê),  feito para ser lido, como se fosse possível que tu algum dia o lesses...Não, não é possível.
Neste hipertexto, onde no passado a dor foi profunda, permanece o vazio e o quase nada, o resto fica imperceptível, soubesse eu escrever...
O resto está para além da lembrança dessa dor, está na espera, na esperança, e em noites de luar...

terça-feira, 25 de outubro de 2011

o fundo do ser...

"(... ) o poeta quer ser um redentor, assumir sobre os seus ombros o mal da existência e redescobrir os verdadeiros nomes das coisas, apagados pela linguagem falsa da comunicação. Na rede inextricável de mediações que envolvem o indivíduo, o poeta é uma criatura anómala, que se recusa a fazer toca nas pregas da rede e se debate para a rasgar e atingir assim o fundo do ser, escondido pela rede. Muitas vezes, como no caso de Hölderlin ou Rimbaud, a aventura é mortal, pois para lá da rede não há nada, e o poeta precipita-se nesse nada."

Cláudio Magris, Danúbio

domingo, 23 de outubro de 2011

Sobre a espera...




Sobre a espera...
talvez seja a espera, que deriva ou é a própria esperança, que nos traz a serenidade nos dias que passam.
Estar à tua espera...
É por te ter perdido que espero.
É por teres ido embora que espero.
É sabendo que não voltas, que espero.
(Quem se foi não volta, espero outro alguém que não tu)
Estar à tua espera...

Estar à tua espera sem que saiba quem és.
Esperar que venhas, não sabendo quem és, crendo que se saberá, quando finalmente chegares.

E depois da tua chegada?
Depois da tua chegada, falar-te da demora, da espera, dos desertos e miragens (sim tudo foram miragens...).
Depois da tua chegada, nos teus braços, descansar desta espera quase infinita.
Depois da tua chegada, ouvir-te falar de onde vieste, por onde andaste.
Enquanto se espera, não se vive? vive-se sim. Há sorrisos e risos, há festas e ternuras...
E o desejo que se esquece...

[Esperar é ter esperança, essa " disposição do espírito que induz a esperar que uma coisa se há-de realizar ou suceder". Esperas infinitas...]

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Guarda-chuvas esquecidos...


"Ladislav Novomeský, o maior poeta eslovaco do século XX, fala, numa poesia sua, de um ano esquecido no café como um guarda-chuva velho. Mas as coisas reemergem, e os guarda-chuvas da nossa vida, deixados aqui e ali uma vez ou outra acabam por nos vir de novo ter às mãos"

Cláudio Magris, Danúbio

terça-feira, 4 de outubro de 2011

há tanta vida à nossa espera...


Por vezes parece que há tanta vida à nossa espera... parece dizer-nos isso os fim de tarde de Outono, deste Outono quente, quando a lua se faz presente, antes mesmo de se jantar.
Tanta vida à nossa espera, por que se vive tão pouco, quando se está à espera, na verdade deixámos que a vida nos passe ao lado.
Viesses tu, para que a vida deixasse de me passar ao lado...

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Uma vez amei, julguei que me amariam




Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão —
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.

http://arquivopessoa.net/textos/986

sábado, 24 de setembro de 2011

Y no estavas tu...


Nostalgia de quem espera, de quem lembra outros tempos, estavas para chegar...

Esta tarde vi llover
Vi gente correr
Y no estabas tu.
(...)
El otoño vi llegar
Al mar oi cantar
Y no estabas tu.

 

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Sim, tudo é sonhar quanto sou e quero.


Sim, tudo é sonhar quanto sou e quero. (F.P.)
E a vida que vai passando-me ao lado...
Tristeza no coração, pequena é certo, porque maiores tristezas existem que não esta minha.


segunda-feira, 25 de julho de 2011

A flame.


Cedo demais... numa tarde de sábado, era Verão.
(1983 ~2011)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Sangrando

Quer-se escrever palavras com beleza, as únicas que merecem ser ditas e escritas, mas com o coração sangrando, que beleza poderia ser dita?

"Ontem à noite, depois da sua partida definitiva, fui para aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque, fui para ali onde fico sempre no mês de junho, esse mês que inaugura o Inverno. Tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral. Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo: vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba. Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque. E depois comecei a escrever..."

Marguerite Duras
Textos Secretos

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Nunca se esquece, tudo se lembra ocultamente.




É o fatídico mês de Março, estou
no piso superior a contemplar o vazio.
Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon
e olha-me, obliquamente, nos olhos:
Não voltas mais? Digo-lhe só que não.

Não voltarei, mas ficarei sempre,
algures em pequenos sinais ilegíveis,
a salvo de todas as futurologias indiscretas,
preservado apenas na exclusividade da memória
privada. Não quero lembrar-me de nada,
só me importa esquecer e esquecer
o impossível de esquecer. Nunca
se esquece, tudo se lembra ocultamente.

Desmantela-se a estátua do Almirante,
peça a peça, o quilómetro cem durando

orgulhoso no cimo da palmeira esquiva.
Desmembrado, o Almirante dorme no museu,
o sono do bronze na morte obscura das estátuas
inúteis. Desmantelado, eu sobreviverei
apenas no precário registo das palavras.


Aeroporto, Rui Knopfli, O Monhé das Cobras, 1997.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Simone

        
         Linda, deslumbrante e ... (algo que não sei dizer ),
        e assim nosso pequeno mundo, nossa pequena vida,
        se faz grande e outra, na brevidade eterna de um show...


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

todas as coisas eram possíveis.

Adeus
 Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade